Monday, 08 de June de 2026
23/05/2026   08:00h - Entrevistas

Doutor Nelson Barbosa Coordenador Estadual do IST/AIDS, fala ao ONJornal, sobre os avanços, gargalos na saúde pública, prevenção do HIV e o cenário das doenças tropicais no Amazonas

O estado do Amazonas enfrenta uma realidade epidemiológica complexa e desafiadora, marcada pela presença de doenças tropicais e infecciosas. A dinâmica da região exige monitoramento constante e respostas rápidas diante de agravos de doenças como a malária, a dengue e a febre amarela, entre outras. Somado a isso, o manejo de condições crônicas como o HIV/Aids e a incidência de patologias oncológicas demandam estratégias integradas de saúde pública que alcancem eficientemente tanto a capital quanto as populações do interior.

Para falar desse cenário com propriedade, o ON Jornal entrevistou o médico infectologista Doutor Nelson Barbosa. Profissional com uma sólida trajetória de 10 anos na Coordenação Estadual de IST/Aids, ele é, atualmente, médico assistencial na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), além de desempenhar o papel de médico intensivista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) da Fundação CECON e da própria FMT. Sua ampla experiência na linha de frente do atendimento confere uma visão profunda sobre os gargalos e os avanços da medicina no Estado.

ON Jornal: Doutor, com sua experiência de 10 anos na coordenação estadual, quais são hoje os principais gargalos no controle do HIV e no combate ao estigma no Amazonas?

Dr. Nelson Barbosa: Atualmente, o controle do HIV/Aids enfrenta desafios decorrentes da percepção da doença como uma condição crônica. O tratamento evoluiu de até O estado do Amazonas enfrenta uma realidade epidemiológica complexa e desafiadora, marcada pela presença de doenças tropicais e infecciosas. A dinâmica da região exige monitoramento constante e respostas rápidas diante de agravos de doenças como a malária, a dengue e a febre amarela, entre outras. Somado a isso, o manejo de condições crônicas como o HIV/Aids e a incidência de patologias oncológicas demandam estratégias integradas de saúde pública que alcancem eficientemente tanto a capital quanto as populações do interior.

Para falar desse cenário com propriedade, o ON Jornal entrevistou o médico infectologista Doutor Nelson Barbosa. Profissional com uma sólida trajetória de 10 anos na Coordenação Estadual de IST/Aids, ele é, atualmente, médico assistencial na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), além de desempenhar o papel de médico intensivista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) da Fundação CECON e da própria FMT. Sua ampla experiência na linha de frente do atendimento confere uma visão profunda sobre os gargalos e os avanços da medicina no Estado.

ON Jornal: Doutor, com sua experiência de 10 anos na coordenação estadual, quais são hoje os principais gargalos no controle do HIV e no combate ao estigma no Amazonas?

Dr. Nelson Barbosa: Atualmente, o controle do HIV/Aids enfrenta desafios decorrentes da percepção da doença como uma condição crônica. O tratamento evoluiu de até 24 comprimidos diários para apenas 2 ou 3 em dose única diária, garantindo qualidade de vida e evitando infecções oportunistas para quem tem boa adesão. O grande problema reside no diagnóstico precoce por parte dos profissionais das Unidades Básicas de Saúde (UBS), que muitas vezes não suspeitam do vírus diante de manifestações clínicas altamente associadas, como casos de herpes-zóster ou tuberculose em pacientes jovens.

Além disso, a discriminação social e profissional continua sendo um gargalo expressivo na região. Embora o preconceito tenha diminuído nos últimos dez anos, período em que, no passado, a descoberta da infecção frequentemente resultava em demissão compulsória imediata, o que hoje contrasta com uma maior aceitação e inclusão institucional , a revelação do diagnóstico de HIV/Aids ainda provoca o distanciamento de amigos e gera barreiras no ambiente de trabalho.

ON Jornal: Como referência internacional, qual é o perfil atual dos pacientes que chegam à FMT com malária, dengue ou febre amarela, e como a Fundação se prepara para possíveis surtos?

Dr. Nelson Barbosa: O perfil do paciente que contrai malária na região é composto majoritariamente por trabalhadores de sítios e pessoas que entram em contato com áreas de mata ou que frequentam as margens de igarapés durante o entardecer. Essa dinâmica epidemiológica está consolidada no estado, visto que há cerca de dez anos a Fundação de Medicina Tropical não registra casos de malária que tenham sido adquiridos dentro de comunidades urbanas.

No que diz respeito à dengue, os registros encontram-se temporariamente reduzidos, mas há uma previsão clara de aumento sazonal das infecções com o avanço do inverno amazônico, período de maiores chuvas que favorece os criadouros do mosquito. Em relação à febre amarela, a eficácia e a constante busca da população pela cobertura vacinal resultaram em um cenário de controle absoluto, sem qualquer notificação ou caso suspeito registrado na instituição nos últimos dez anos.

ON Jornal: Sobre as hepatites virais, que têm forte presença na região amazônica, quais avanços no diagnóstico precoce têm sido fundamentais para evitar casos graves?

Dr. Nelson Barbosa: O volume de casos de hepatites virais apresentou uma redução acentuada na região amazônica como reflexo direto da imunização em massa. Atualmente, a disponibilidade de vacinas para a Hepatite A e para a Hepatite B, cujo imunizante também confere proteção cruzada contra o vírus Delta, desempenha um papel fundamental na contenção dessas variantes no Amazonas.

Por outro lado, a Hepatite C continua sendo a única que não possui vacina protetora, tendo histórico de transmissão por transfusões de sangue em décadas passadas. Esse cenário foi transformado pelo controle rigoroso exercido pela fundação de hematologia do estado (HEMOAM), de excelência internacional, que descarta bolsas com qualquer vestígio do vírus. Isso limita o perfil atual da doença a pacientes crônicos que contraíram a infecção há mais de dez anos e que agora manifestam sequelas tardias, como cirrose e hepatocarcinoma.

ON Jornal: Na UTI da FMT, quais são as complicações mais frequentes causadas por acidentes ofídicos, leishmaniose ou doença de Chagas que exigem terapia intensiva?

Dr. Nelson Barbosa: As internações na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) decorrentes de acidentes ofídicos restringem-se aos casos em que os pacientes evoluem com a síndrome compartimental. Essa complicação grave se caracteriza por uma resposta inflamatória exacerbada com edema intenso no membro picado (mão ou pé), o qual comprime a musculatura e os vasos sanguíneos, gerando risco de isquemia e perda do membro. Isso exige uma intervenção cirúrgica emergencial (fasciotomia) para liberar a pressão antes do retorno do paciente à enfermaria.

No caso da doença de Chagas, a instituição conta atualmente com dois pacientes internados em enfermaria com o quadro clínico na fase aguda. Por estarem no início da infecção e sem comprometimento de órgãos vitais como coração, esôfago e intestino, eles cumprem o protocolo de 60 dias com benzonidazol sob monitoramento endoscópico e cardíaco. As complicações graves e a necessidade de transplantes ocorrem apenas na fase tardia e crônica da doença, embora nenhum caso no estado tenha demandado transplante até o momento.

ON Jornal: Como o senhor avalia o alcance e a adesão às ferramentas de prevenção combinada, como a PrEP e a PEP, pelas populações no Amazonas?

Dr. Nelson Barbosa: A população do Amazonas apresenta um nível de adesão considerado excelente em relação às profilaxias pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP). O grande entrave para a consolidação dessa estratégia de prevenção combinada é a falta de descentralização e universalização do acesso nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), fazendo com que os usuários recorram continuamente ao pronto-atendimento da Fundação de Medicina Tropical por não encontrarem os medicamentos nos postos de seus bairros.

Cientificamente comprovadas como ferramentas que salvam vidas, as terapias possuem indicações distintas no manejo da prevenção. A PrEP consiste no uso contínuo ou programado do medicamento antes da relação sexual, sendo direcionada a grupos mais expostos e vulneráveis. Já a PEP funciona como uma medida de urgência após a exposição, indicada para qualquer indivíduo que tenha passado por uma situação de risco (sexual ou profissional) e que relate o fato na unidade de saúde em até 72 horas para obter a liberação do tratamento.

ON Jornal: Pensando no futuro, quais projetos ou parcerias científicas o senhor considera fundamentais para reduzir a mortalidade por doenças infecciosas e oncológicas no Amazonas?

Dr. Nelson Barbosa: Nós poderíamos resumir o cenário em dois conceitos muito divulgados e complementares: diagnóstico precoce e tratamento imediato. Conseguimos salvar vidas se agirmos rápido. O grande desafio surge quando o paciente mora no interior, onde há escassez de recursos para que seja feito esse diagnóstico precoce, tanto de uma doença infecciosa quanto de uma patologia oncológica. Nessas condições, a dificuldade no tratamento e na recuperação é certamente maior. Portanto, o fundamental é que os gestores de saúde concentrem esforços e investimentos na descentralização do diagnóstico, na prevenção e no tratamento precoce de todas essas mazelas que atingem a população, tanto na capital quanto no interior.


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